Saiba quem são os gatos ferais que a Austrália quer exterminar

Por SÍLVIA HAIDAR

O governo australiano anunciou que pretende matar dois milhões de gatos ferais no país nos próximos cinco anos. De acordo com Greg Hunt, ministro do Meio Ambiente da Austrália, o objetivo é preservar espécies que são presas fáceis desses animais, como pequenos mamíferos e pássaros.
Segundo Hunt, os gatos ferais são “uma praga nociva” e serão aniquilados “humanitariamente” por meio de envenenamento, tiro e iscas. O projeto conta com um investimento inicial de US$ 6,6 milhões, com a maior parte desse valor destinada à erradicação do gato.

 

Para Claire Fryer, coordenadora de campanha do Peta (pessoas pelo tratamento ético de animais, na sigla em inglês) da Austrália, exterminar os gatos ferais, além de ser cruel, é ineficaz a longo prazo.

 

“Matar os gatos para ‘gerenciar’ sua população pode criar condições que favorecem a reprodução acelerada”, afirma Fryer. “O declínio populacional abrupto que o extermínio causa conduz a uma menor competição por comida entre os sobreviventes e, em última análise, a uma taxa de natalidade mais elevada.”

 

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POR QUE “FERAIS”?

 

Mas, afinal, por que esses gatos são chamados de ferais? Segundo a Alley Cats, uma das ONGs mais antigas que cuida desses animais, fundada em 1990 nos EUA, os gatos ferais são iguais aos gatos domésticos, mas incapazes de se socializar com seres humanos.

 

O gato feral é um gato que nunca teve contato com humanos ou seu contato foi diminuindo ao longo do tempo. Eles vivem em colônias na natureza.

 

“Ao contrário dos gatos normais, os ferais não vocalizam [miam ou ronronam] para as pessoas”, conta Otávia Mello, idealizadora do projeto Felinos Urbanos, que realiza a técnica conhecida como C.E.D. (captura, esterilização e devolução) em São Luís, no Maranhão.

 

O método C.E.D. é o mais indicado por ONGs e veterinários para controlar a reprodução dos gatos ferais. “Nós os capturamos, fazemos a castração com técnicas cirúrgicas minimamente invasivas e utilizamos medicação de amplo espectro para que o animal possa ser devolvido ao seu local de origem logo após acordar da anestesia”, diz Mello.

 

Manter os gatos ferais presos não é indicado devido ao medo que sentem dos seres humanos. “Esses gatos não se adaptam a ambientes fechados como casas e abrigos, por isso tentar encaminhá-los para a adoção não é uma opção. O estresse que sofrem pode levá-los à morte”, afirma Mello.

 

Durante a cirurgia, é feita uma pequena marcação na orelha esquerda do animal, que é o sinal internacional de gatos castrados com a técnica C.E.D., para facilitar sua identificação.

 

Tatiana Sales, coordenadora operacional da ONG Confraria dos Miados e Latidos, que pratica a técnica C.E.D. em animais de São Paulo e do Rio de Janeiro, também repudia a decisão do governo da Austrália: “Nós achamos uma lástima que o ser humano insista em atacar o efeito e não a causa. É inimaginável exterminar dois milhões de bichos”.

 

“Tantos gatos não nasceram ontem. Por que não controlar isso [sua população] antes? É algo que seria totalmente evitado com ações de C.E.D.”, afirma Salles.