‘Dai de Comer aos Gatos’; leia crônica do poeta Carlos Drummond de Andrade sobre os bichanos

Por SÍLVIA HAIDAR

Há 30 anos, em 17 de agosto de 1987, morria o poeta Carlos Drummond de Andrade. Nascido em 1902 em Itabira, no interior de Minas Gerais, o escritor teve textos seus publicados na Folha de 1930 a 1986.

Amante dos animais, Drummond teve um gato chamado Inácio e um cão chamado Puck. Em texto de 21 de outubro de 1978, publicado na Folha, ele defende os direitos dos animais.

Na crônica abaixo, intitulada “Dai de Comer aos Gatos” e publicada no jornal em 6 de junho de 1948, Drummond fala sobre uma senhora que alimentava animais abandonados. A grafia do texto foi mantida conforme a versão original.

DAI DE COMER AOS GATOS

Não vos falarei da bomba atômica nem de outros eventos do dia. A escala mundial excede as proporções desta mísera crônica. Prefiro os mínimos, os imponderáveis. E vou procurar o meu assunto onde ninguém o botou: entre as folhas da relva de um pequeno jardim encravado no centro desta curiosa cidade que é nossa e que se chama o Rio de Janeiro.

Meu assunto é um embrulho de comida. Se o abrimos, veremos que são antes catorze embrulhos pequenos, um deles relativamente maior que os demais. Já satisfeita a primeira curiosidade e expostos os volumes constituídos em papel de jornal eis que deles se aproxima um gato, dois gatos, depois muitos gatos. Não são animais de boa linhagem com pretensões a árvore genealógica e outros granfinismos bragantinos.

Humildes gatos de rua, na maioria pretos, alguns malhados, porém gatos, fundamentalmente gatos no estilo cauteloso com que se avizinham, na seriedade dos olhos –mélés de métal et d’agate, com dizia o poeta– na elegância natural com que portam, inspecionam o ambiente e se decidem a comer.

Estão comendo. As plantas do jardim, que é moderno e não comporta flores, mas apenas folhagens, excedem de vinte vezes no máximo a estatura dos felinos. Mesmo assim, hão de considerá-las árvores gigantescas à sombra das quais se acolhem e se protegem das incertezas da vida civilizada. Porque estes gatos estão na selva, embora a selva se localize na Esplanada do Castelo. Não pertencem a nenhum dono, e foram os primitivos incorporadores do bando pelo menos expulsos de alguma casa das vizinhanças. Não perderam de todo a domesticidade, mas deram um salto para trás, no caminho da selvageria. O homem abandonou-os: encontram um jardim e passaram a cultivá-los à maneira dos gatos, para quem a contemplação é uma forma de ação.

Estão comendo. Observai o que contém cada embrulho. Não é apenas o miserável arroz, o consuetudinário feijão: é também a preciosa carne, presente dos deuses, sonhos das donas de casa, alucinação das cozinheiras. Eis aí carne de vaca, talvez com osso, não é possível enxergar bem, pois são sete horas da noite e a massa de vegetação derrama sobre estas coisas uma sombra protetora: em todo caso, carne, e como comem! Cada gato é um pequeno pachá, instalado na grama, deglutindo sua carnezinha à sombra dos arranha-céus, enquanto na cidade declina a batalha da condução.

Mas essa carne veio do céu? — perguntareis. E vossa indignação será respondida. Não, veio de açougues, e foi comprada por esta senhora que ao vedes curvada sobre a grama, abrindo os pacotes e dispondo-os a espaços regulares. Ela os preparou a todos. São catorze, para outros tantos animais. Se há um maior é porque se destina a um cão também despossuído, e que faz ponto mais adiante. Nem todos os gatos residem neste jardim. Há outros em local próximo. A senhora que vos aponta lá irá ter com eles na hora justa: enquanto isso, atende aos daqui por uma questão de ordem, e porque não há jardim que caiba todos os gatos e todos os cães sem teto.

Notai que a boa dama não faz publicidade. Não está anunciando nada, nem mesmo o seu pendor generoso. Acabou de jantar –à pressa, porque os bichos não podiam esperar–, organizou seu fardo incômodo e veio trazê-lo aos dois ou três lugares onde se acham seus amigos irracionais. Faz isso todas as noites. E não é rica. Vê-se pela modéstia do vestuário que é decoroso, sem fantasia, e indica talvez a viúva do oficial do Tesouro ou a contramestra da casa de modas. (Observai de passagem, à luz deste poste de esquina, como são finos os seus cabelos grisalhos, delicadas as suas mãos).

Se lhe perguntardes por que faz assim… Mas, não lhe pergunteis nada. Será preciso explicar por que se dá de comer a um bicho? Por que se sai de casa à noite, carregando um embrulho de jornal de manejo incômodo quando se podia ir ao cinema ou ficar no quarto escutando no rádio a música boa ou má, de nossa predileção? Há forças que nos prendem aos bichos, e quem não sentir em si essas forças, não compreenderá jamais; quem as sentir dispensa explicações. Imaginemos, apenas, que ao amor aos bichos se junte o desencanto dos homens, não raro bem menos sensíveis do que cães e gatos; e veremos nessa distribuição noturna de rações aos nossos irmãos de cauda, não apenas um ato cordial e um ato poético, mas inclusive um protesto irônico e franciscano contra a linha habitual de conduta desse pretensioso animal sem rabo, que é o homem.